A crise tireotóxica representa uma síndrome clínica abrupta decorrente uma série de gatilhos como infecção, radioterapia ou uso de drogas que aumentam a oferta de iodo a glândula, como a Amiodarona, e cuja consequência imediata será a liberação excessiva dos hormônios tireoidianos, sobretudo em sua fração livre.
É uma condição rara relacionada ao hipertireoidismo, correspondendo atualmente a menos de 2% das admissões hospitalares por tireotoxicose. Sua menor incidência decorre do diagnóstico precoce do hipertireoidismo e aperfeiçoamento do pré e pós cirúrgico das tireoidectomias. Contudo, vale observar que independente da causa da crise tireotóxica, caso esteja presente, sua mortalidade pode superar 30%.
Clínica
Do ponto de vista clínico, vários sistemas são acometidos, mas os principais são o cardiovascular e sistema nervoso simpático, além da febre, que está presente na quase totalidade dos casos e cuja temperatura média é elevada. Mais de 90% dos pacientes apresentam temperatura corporal maior que 38,5ºC.
Quanto aos sintomas cardiovasculares, a taquicardia sinusal ou mesmo arritmias, como fibrilação atrial (FA) podem ocorrer. Agitação, tremores e confusão mental também se fazem presentes e até mesmo o coma. Outros sintomas incluem náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e icterícia, sendo esta um fator de mau prognóstico.
Diagnóstico
Do ponto de vista laboratorial, espera-se TSH suprimido e T3 e T4 livre elevados. Os critérios diagnósticos de Bursch auxiliam na avaliação do paciente. Uma pontuação maior que 45 fecha o diagnóstico de crise tireotóxica, enquanto 25 a 44 pontos indica uma crise iminente e abaixo de 25 pontos é uma crise improvável.
Critérios diagnósticos de Bursch

Tratamento
Sobre o tratamento, além do suporte clínico geral, o tripé consiste em interferir na síntese hormonal, a partir de antitireoidianos e bloqueadores da liberação hormonal; controlar os sintomas hiperadrenérgicos, por meio de beta-bloqueadores, e tratar a causa precipitante.
Medicações e doses:
- Propiltiouracil (PTU): dose de ataque de 600 a 1.000 mg, posteriormente dose de 200-300 mg a cada 4 a 6 horas (1.200 a 1.500 mg ao dia).
- Metimazol: dose inicial de 20 mg a cada 4 a 8 horas (60 a 120 mg ao dia).
- Lugol ou iodeto de potássio: dose de 4-8 gotas em período de 6-8 horas
- Propranolol via oral: 40 a 80mg a cada 8h
- Metoprolol EV: 5mg a cada 15min
- Hidrocortisona 100mg EV a cada 8h
- dexametasona 2-4mg EV a cada 6h
Referências
VELASCO, Irineu Tadeu et al. (ed.). Medicina de emergência: abordagem prática: disciplina de emergências clínicas Hospital das Clínicas da FMUSP. 16. Barueri: Manole, 2022
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